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Neruda.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche. Escribir, por ejemplo : 'La noche está estrellada, y tiritan, azules, los astros, a lo lejos'. El viento de la noche gira en el cielo y canta. Puedo escribir los versos más tristes esta noche. Yo la quise, y a veces ella también me quiso. En las noches como ésta la tuve entre mis brazos. La besé tantas veces bajo el cielo infinito. Ella me quiso, a veces yo también la quería. Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. Puedo escribir los versos más tristes esta noche. Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. Oir la noche immensa, más inmensa sin ella. Y el verso cae al alma como al pasto el rocío. Qué importa que mi amor no pudiera guardarla. La noche está estrellada y ella no está conmigo. Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos. Mi alma no se contenta con haberla perdido. Como para acercarla mi mirada la busca. Mi corazón la busca, y ella no está conmigo. La misma noche que hace blanquear los mismos arboles. Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. Ya no la quiero, es cierto pero cuánto la quise. Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero. Es tan corto al amor, y es tan largo el olvido. Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos, mi alma no se contenta con haberla perdido. Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa, y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 22h12
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a força dos solitários
com duas velas pandas o saveiro sozinho vence o mar inteiro
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h12
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desista, não insista.
o teu olhar bóia, sorrateiro. espreita, estreito, o leito do meu rio. o teu olhar naufraga, vago, estende a mão e pede arrego. o teu olhar não nega: quer afago, não sossega. mas o meu olhar gelado te renega mas o meu olhar parado eu (f)rio
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h10
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poema
Eu dormia na eternidade desbotada de tuas mãos, ouvia as folhas beberem o perfume do nosso sangue, acordava e era cedo demais, dormias quando já era tarde, meu amor. Teu abandono escrito nas costas das minhas mãos, tatuagem, mentira de rouxinol. Um anzol no escuro, faca cortando o breu. Eu dormia na eternidade de um carinho plácido, amargo, impossuído, e tudo isso quando era já tarde, demasiado tarde.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h04
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Carta sem destinatário número 2: e se faltassem seis meses.
É tão estranho, toda essa gente falando uma língua estranha ao meu redor, esbarrando em mim. Todos esses olhos e rostos me mirando de tão longe, enquanto tu, tu estás no meu passo e no meu caminho, me acenando entre árvores, neve e pilhas de folhas secas; você caminhando as minhas pernas, tocando meus cabelos com dedos de vento: você tão perto, te trago inteira dentro de minhas mãos vazias, te tenho toda guardada nos olhos, na boca, no meu cansaço de seis meses de insônia e sede. Seis meses são seiscentos e sessenta e seis séculos de espera quando o desejo diz que não dá pra esperar mais nem seis minutos. São seis mil anos debaixo d’água, seis milhões de eternidades. É uma distância invencível, um abismo cavado por segundos urgentes e minutos desesperados; e ainda assim quase te toco, na escuridão do meu quarto sei que basta estender a mão e teu rosto estará à minha espera, meus dedos percorrendo os contornos dos teus sorrisos e suspiros, e então seis meses é tão perto quanto abrir meus olhos e lembrar que existes, que estás lá, braços abertos no aeroporto, me esperando como se tivesse sido ontem que nos conhecemos, como se um breve sonho – e nunca seis eternos meses - tivesse nos separado por instantes. E ainda por cima esta tela fria entre nós, uma foto, tua voz: tudo feito para nos enganar, essa tecnologia especializada em sabotagem de beijos e carinhos, todos tornados impossíveis, guardados para depois, para daqui a seis meses. E as mãos não dadas e as carícias nunca feitas vão tornando cada minuto mais insuportável, estico minhas mãos e quase te alcanço, entre a tua voz e aquele passo descendo do avião está a certeza de que seis meses passarão, porque não há remédio para o tempo, que é tão forte e mesmo assim, passa, senão passar: e ainda que fossem seis anos ou sessenta, passariam também, o tempo é do tamanho da gente, minha querida, e o encontro deixado para daqui a pouco é o encontro que já aconteceu, que está acontecendo agora, eu fecho os olhos e sei que estás aqui, dentro do nosso imenso abraço feito de demoras, de esperas, de uma deliciosa angústia de seis meses.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 00h55
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Primeira Carta sem Destinatário.
Moça, gostei tanto da tua voz, do teu olhar. Do teu rosto hesitante, onde brota tanta pergunta que você vai deixando sem resposta. Gosto disso, talvez eu goste principalmente disso. Você resume tudo em sorrisos, as dúvidas e os sonhos, diz tantas coisas com os cabelos, com os olhos. Você, que é toda gesto doce, palavra sutil e música suave, de repente vira declarações gritadas na testa, exclamações nas mãos, você é exageros de força e de delicadeza. Mas não escolheu a hora de chegar, não esperou, foi entrando como o vento soprando pela porta que alguém esqueceu aberta e à noite se enovelou nos meus cantos, descansando sobre os móveis, iluminando o quarto: cemitério de meus outros sonhos, de minhas outras verdades perdidas. E eu não estava pronto. E por isso é que é engraçado, é como se eu risse de alguém escorregando numa poça d’água para, em seguida, cometer o mesmíssimo erro mil vezes, repetindo cada tombo, caindo na lama, rompendo uma cortina de promessas: você do lado de dentro sem convite, sem ruído, você abrindo rombos nas paredes. Você silêncio, trazendo o peso de tua voz para dentro das horas: para dentro dos meus dias, amanhãs e ontens. Você e suas sombras, sobrancelhas pedindo um instante de paz, teu riso quebrando tudo, estilhaçando a casca do tédio e da tristeza, lavando as teias de aranha que eu esqueci dentro de mim, faz tanto tempo, moça, nem queira saber. Eu sei, vai amanhecer assim que eu trouxer aquela semente na palma da mão, aquela que eu tinha guardado para depois, para daqui a muitos anos, praquela manhã que a gente pensa que pode planejar e não pode, não tem jeito, ela sempre chega fora de hora! Eu sei, não se pode evitar que uma árvore nasça quando a terra a encontra; mas eu ainda posso fechar a mão, egoísta, posso deixar a semente secar para sempre sobre a mesa, imóvel, tão morta quanto um esqueleto, e então olhar para ela, sabendo que jamais verei aquela árvore crescer, que nunca terei suas folhas cobrindo meu chão no outono nem a primavera milagrosamente reflorindo teus olhos. E se agora me aperta um pouco o coração, moça, se hesito antes de devolver a semente à escuridão de minhas mãos fechadas, é por imaginar que flores não viriam dali, que frutos doces não chegariam com aquele outono à minha porta, montanhas de ilusões perdidas, de carne e sangue, de distâncias incertas, de derrotas definitivas: saudades do que ainda nem sentimos. A luz da rua treme, alguma coisa no ar frio desta noite me diz para continuar, o vento sempre empurrando tudo para longe, carregando anos inteiros pela janela, é tudo tão frágil. O que é que resta do que fui eu, do que foi você há vinte anos, há cinco minutos, antes desta carta tosca debaixo dos teus olhos? As horas correm, voam, nem ligam pro nosso desespero, as aparências mudam o tempo todo. E você, brisa leve, quem sabe há de passar, também: deixando menos que um eco nessas paredes da memória em que te guardo agora, desaparecendo feito nuvem, rastro nenhum. Mas eu sei, sei que vais levar um pouco do meu olhar e de meus ouvidos, atentos à tua voz; vais carregar na pele, no pescoço, nas pálpebras abaixadas, na nuca, tudo o que eu não te disse, tudo que eu não posso te dizer ainda, moça, essa vida sempre chega de surpresa e eu nunca, nunca que estou preparado e não conheço as palavras certas, eu só sei dizer olhando, só sei dizer com as mãos, sinto muito, para te encontrar ainda falta tanto tempo e eu nem sei por onde você anda.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 00h46
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Um soneto.
Já dizia um escritor famoso, do qual não recordo o nome (imagina se não fosse famoso...), que “poesia é coisa pra macho”. Com isso querendo dizer que o gênero mais difícil é o poético. Concordo: em nenhum outro o escrevinhador se sente mais vulnerável e exposto em seus defeitos do que ao tentar fazer poesia. Como sou teimoso, resolvi seguir o conselho de um dos meus poetas favoritos, Mario Quintana, que dizia que “verso livre é o verso mais difícil que existe” e que o soneto é muito bom pra praticar... eu sigo teimando. Mas não me deixa em paz o teu semblante! Nem me abandona o peso dos teus olhos... com teus pequenos pés silenciosos, me cercas, mais e mais, a cada instante. Dançando, moça, a tudo indiferente, debaixo de minhas pálpebras cansadas e em ventanias de flores ritmadas, iluminas-me o rosto, de repente!.. Iluminado, acordo, num rompante, e te desenho, linda, entre poemas! E borro tua lembrança - esquecimento. E te devolvo, bailarina andante (transpirando perfumes de outras eras) a um tempo em que eras neve, azul, silêncio.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 17h25
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sonhando (2009)
...que suave este teu balé no ar, como te equilibras admiravelmente nestes cordões de móbile sobre o berço em que sonho, distraído...
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 02h22
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enquanto falas (2009)
Eu te escuto falar e não estás em tuas palavras, em algum lugar de mim procuro tua voz. Te desprendes de tua boca em grandes nuvens brancas, em bolhas de silêncio que flutuam plift entre nós plaft pluft. Meus olhos escutando palavras que dormem sob teus pés, sinto o gosto de tua língua arredondando ós, tua saliva pondo pingos nos is. Com os lábios sublinhas, delicada, as sílabas que sobem, escandidas, penduradas em vírgulas de lágrimas e em pontos de nossas exclamações, coladas no teto como balões de gás. Eu te escuto falar como se pudesses dizer-me alguma coisa, qualquer coisa inesperada e doce, mas a doçura desfeita antes de abrires a boca, perdes tuas palavras difusamente enquanto te tornas mais e mais real, silêncios abrindo clareiras em nós. Agora estás muda e verdadeiramente te reconheço, minhas mãos juram que és linda, meus olhos escutam teu coração batendo como se dormisses, em alguma parte de mim descubro teu mais duro e secreto silêncio.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 02h19
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Sobre os poemas "Estrelas" e "Noite"
Escrevi vários poemas com a temática "noite" e os inscrevi num concurso em meados de 2007. Obviamente, eram poemas bem fraquinhos e não ganhei nada (ainda bem). Alguns não tinham conserto. Outros, bem poucos, fui remendando com o passar dos anos. Sobreviveram dois ou três, pobrezinhos, que escaparam da minha guilhotina feroz da auto-crítica. Publico-os abaixo, em memória dos bons poemas que eles nunca puderam ser (por minha culpa, da qual não me eximo).
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 02h05
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Estrelas III
Desce Estrela Pelo caudal na penumbra Sobe Estrela Contra o fluxo da constelação Brilha Estrela Mostra onde é o meio do mundo
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h57
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Estrelas II
As estrelas não são olhos que espiam Nem jóias rebrilhando São corações Musculosas bombas ventriculares que se contraem e relaxam E fazem circular a luz arterial Pelo corpo do universo. Quando o coração não cabe no peito explode Vira uma estrela sangüínea Vira um órgão celeste
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h56
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Noite X – Pequeno drama noturno
Arrastando a asa no lamaçal do dia O anjo cansado se recolheu Pairando atrás dum cinamomo À sombra fresca, adormeceu. (Inteiramente nu.)
É noite no bairro. Senhoras passeando. De repente gritos! O guardinha apitou. Um homem nu no bairro! E roncando! Façam alguma coisa, ele acordou! (Abrem-se marotos olhos angelicais.) O anjo acorda sem alarde Dormiu até muito tarde! Alça o vôo e num instante Alcança local mais interessante (e silencioso) Sua nuvem predileta No arrabalde do céu O guardinha, apavorado Resolveu trabalhar no Estado. O salário é subsidiado E lá ninguém anda pelado.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h55
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Estrelas I
Em silêncio os vaga-lumes se enfileiram Em assembléia discutem Propõem Assentam Discordam Tergiversam Ameaçam veladamente E por fim decidem que as estrelas devem brilhar menos.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h54
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Microconto - Ícaro na chuva
Vôos altos são para corações que não têm medo da queda, sonha Lúcia, acordada apesar da imensidão do seu cansaço de três noites sem dormir, olhando pela janela do seu quarto para o centro chuvoso de Porto Alegre, pensando. Pensando porque não pode amar, se amasse, não pensaria: o amor não é um exercício que se pratique no silêncio de uma janela sob a chuva às três da tarde, sem ruídos, ou então com todos os ruídos do mundo de uma só vez, pontes que desabam. Suspiro, mas se eu pudesse não voar, lembra, quase exausta, na fronteira entre a lembrança inventada de um carinho e um desespero sem asas. O sol está tão perto, agora, ela quase o adivinha derretendo a cera de suas costas. Abre a janela, sente a chuva que entra arrastada pelos golpes do vento, respira fundo. Voar, voar, lá embaixo a Salgado Filho é uma correnteza lenta de guarda-chuvas que oscilam, tão pequenos. Amar, amar, subir, subir. Tudo valerá a pena. A mão agarra com firmeza o batente da janela enquanto, na esquina, um pipoqueiro inútil pensa no filho que está doente. Ao seu lado, dormem abraçados dois mendigos. E ninguém vê, ninguém pressente, ao menos, o imenso par de asas que de repente se abre em par, abençoando o mundo, da janela do décimo-quinto andar. Precipita-se um vulto sobre a cidade, acabou, ou talvez tudo tenha começado, afinal. Sobre a cômoda o retrato de Lúcia. Tão só. O sol brilha teimoso entre as nuvens e a tarde continua como sempre, em Porto Alegre, eterna sob a chuva. Pela janela o som de um rádio esquecido, uma música: “fugir, meu bem/ pra ser feliz/só no pólo sul/não vou mudar/do meu país/ nem vestir azul”. Lúcia de olhos abertos. O sol. Amar, amar, até o céu cair.
Escrito por Fabrício Sguissardi Basso às 01h29
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